Mitos do 1%: O Que Está Aumentando a Desigualdade Social

Destruindo os equívocos sobre o que está gerando desigualdade social.

17 de novembro de 2017

A desigualdade de renda inspira um debate feroz em todo o mundo, e não falta soluções propostas. Bilionários aumentavam os lances para uma pintura de Leonardo da Vinci para 450,3 milhões de dólares em um leilão na quarta feira. Enquanto isso, o Congresso estadunidense debateu reformas fiscais que dariam os maiores benefícios aos 1% mais ricos dos contribuintes, segundo muitos analistas.

Nos Estados Unidos, o 1% mais rico viu sua participação na renda nacional praticamente dobrar desde 1980 (de 11% em 1980 para 20% em 2014). Essa tendência, combinada com o lento crescimento da produtividade, resultou em padrões de vida estagnados para a maioria dos americanos.

Onde os 1% ganharam mais
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Nenhum outro país da OCDE é tão desigual quanto os EUA, e nenhum experimentou um aumento tão grande da fatia dos 1% mais ricos. (A Rússia não é membro da OCDE).

Nenhum outro país da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico de 35 membros é tão desigual, e nenhum deles experimentou um aumento tão acentuado da desigualdade.

Na Dinamarca, a riqueza dos 1% subiu de 5% da renda nacional para 6% apenas. Na Holanda,  praticamente não houve aumento e se manteve em 6%. A Grã-Bretanha (de 6% a 14%) e o Canadá (9% a 14%) tiveram aumentos notáveis ​​nos ganhos dos 1% mais ricos, mas não tão grandes quanto os dos Estados Unidos.

Antes de ver o que está por trás disso, vamos abordar equívocos comuns.

Não, não é comércio

Um aumento no comércio internacional – uma parte do PIB, medido em importações ou exportações com dados do Penn World Tables– está associado à igualdade e não à desigualdade. Os Estados Unidos importam apenas uma pequena fração do valor de sua economia total, enquanto a Dinamarca e os Países Baixos são altamente dependentes das importações.

 

Ou a ascensão da tecnologia da informação

Os países com maiores taxas de invenção – conforme pedidos de patente registrados no Tratado de Cooperação de Patentes – apresentam menor desigualdade do que os países menos inventivos. Enquanto isso, as indústrias de tecnologia nos Estados Unidos contribuíram apenas um pouco para o aumento dos 1%, e os salários dos engenheiros e desenvolvedores de software, com uma renda anual média de US $ 390.000, raramente alcançam esses 1%.

 

E quanto aos Sindicatos?

É comum acreditar que sindicatos redistribuem a renda dos proprietários para os trabalhadores, mas não há correlação nos países entre a mudança na participação dos trabalhadores no PIB desde 1980 e um aumento na fatia da renda dos 1% mais ricos. A Grã-Bretanha viu um aumento na participação trabalhista do PIB. mas também um dos maiores aumentos de desigualdade. Os Países Baixos viram uma grande queda na participação dos trabalhadores, mas sem aumento da desigualdade.

Os países escandinavos são fortemente sindicalizados e igualitários, mas a Dinamarca experimentou uma grande diminuição na participação dos trabalhadores representados pelos sindicatos de 1980 a 2015, de acordo com dados da O.C.D.E., e muito pouca mudança na desigualdade. As taxas de sindicalização caíram precipitadamente na Holanda e especialmente na Nova Zelândia durante o período, mas a desigualdade aumentou a mesma coisa (ou até mais) na Espanha, onde as taxas de sindicalização aumentaram.

 

Não é imigração, também

Nacionalistas atribuem a crescente desigualdade à imigração em massa e as habilidades supostamente baixas dos imigrantes.

Não há correlação entre a mudança da concentração de imigrantes desde 1990 e o aumento da renda dos mais ricos. Na verdade, os países que absorveram a maioria dos imigrantes – com base na renda per capita – viram a desigualdade de renda total (medida pelo coeficiente de Gini) cair.

Uma suposição implícita neste argumento é que os imigrantes arrastam os ganhos no final da distribuição, piorando a desigualdade. Se este fosse um fator importante, o aumento da desigualdade deveria coincidir com grandes lacunas na renda entre adultos não-nativos e nativos adultos. Mas não é o que acontece.

Minha análise de dados da Gallup World Poll de 2009 a 2016 mostra que, na Holanda, os adultos nascidos no exerior ganham 37% menos do que os adultos nativos, depois de ajustar a idade e o gênero. Este é o maior hiato entre os paíse da O.C.D.E., e ainda assim, o país não viu mudanças na desigualdade de renda superior. Canadá (menos 8%) e Grã-Bretanha (menos 7%) têm pequenas lacunas, mas uma alta e crescente desigualdade.

 

Nos Estados Unidos, os gerentes são uma minoria entre os melhores salários

A maioria dos melhores salários nos Estados Unidos não são de executivos nem mesmo de gerentes. As pessoas nessas ocupações representam pouco mais de um terço de todos os maiores ganhadores nos Estados Unidos. E essa participação vem caindo – particularmente para executivos corporativos – e é menor do que em muitos outros países mais avançados. Na Dinamarca, no Canadá e na Finlândia, cerca de metade dos maiores ganhadores estão nas ocupações gerenciais, de acordo com a minha análise dos dados do Estudo da Renda de Luxemburgo.

 

Então o que está acontecendo?

Quase todo o crescimento dos estadunidenses mais ricos vem de apenas três setores econômicos: serviços profissionais, finanças e seguros e cuidados de saúde, grupos que tendem a se beneficiar de barreiras regulatórias que os protegem da concorrência.

Os grupos que contribuíram com a maior parte das pessoas para 1% desde 1980 são:

  • médicos;
  • executivos, gerentes, supervisores de vendas, e analistas que trabalham nos setores financeiros;
  • executivos da indústria de serviços profissionais e jurídicos, gerentes, advogados, consultores e representantes de vendas.

Sem mudanças nestas indústrias de serviços domésticos em grande parte – finanças, cuidados de saúde, e direito – os Estados Unidos se pareceriam com o Canadá ou a Alemanha no que diz respeito à igualdade de renda.

O Salário dos Profissionais de Elite
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A quantidade de dinheiro que os profissionais de elite ganham em relação à média é altamente correspondente ao índice de desigualdade (coeficiente de GINI).

Os Estados Unidos também se destacam em termos de quanto dinheiro seus profissionais de elite ganham em relação ao trabalhador médio. Os trabalhadores no percentil 90 da distribuição de renda para profissionais fazem 3,5 vezes os ganhos do trabalhador típico (mediano) em todas as ocupações nos Estados Unidos. Somente o México e Israel, que têm uma desigualdade muito alta, compensam os profissionais de forma desproporcional. Na Suíça, Holanda, Finlândia e Dinamarca, a proporção é de cerca de 2 por 1.

A relação com a desigualdade

Esta relação, o ganho de profissões de elite, está altamente correlacionada com a desigualdade de renda entre países.

Outros estão percebendo essas tendências. Um novo livro, “The Captured Economy“, de Brink Lindsey e Steven Teles, argumenta que os regulamentos regressivos – leis que beneficiam os ricos – são a principal causa dos extraordinários ganhos de renda entre profissionais de elite e gestores financeiros nos Estados Unidos e de uma redução no crescimento.

Este ano, o Richard Reeves da Brookings Institution escreveu um livro sobre como as pessoas na classe média alta moldaram as normas legais e culturais para sua própria vantagem. Com diferentes pontos de vista, Joseph Stiglitz, Robert Reich e Luigi Zingales também escreveram extensivamente sobre como o poder político das elites minou os mercados.

 

Os problemas citados por esses analistas incluem subsídios para atividades de risco do setor financeiro; superproteção de softwares e patentes farmacêuticas; a onda de controles de uso da terra que aumentam aluguéis em áreas metropolitanas cobiçadas; favoritismo em relação aos titulares do mercado através de regulamentos estaduais de licenciamento profissional (por exemplo, associações que representam advogados, médicos e dentistas que bloqueiam os esforços que permitem à outros profissionais fornecerem serviços de rotina a um preço mais baixo sem sua supervisão).

Estas são apenas algumas das causas que contribuem para a crescente participação na renda desses 1% mais ricos da população. Reformar as leis relevantes pode tornar os mercados mais eficientes e igualitários, e, ao invés do comércio, da imigração e da tecnologia, as causas políticas do aumento dos 1% estão diretamente sob o controle dos cidadãos.

Traduzido do artigo original de

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